Artigo 24 - Envelhecer, Políticas Públicas e a Opção Cohousing
ENVELHECER, POLÍTICAS PÚBLICAS E A OPÇÃO COHOUSING
“Idoso é um jovem que deu certo”.
“Envelhecer é um privilégio negado a muitos”.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022, em 2050 está previsto que a população mundial com 60 anos ou mais vai chegar a um total de dois bilhões de pessoas, representando ¼ da população global, sendo que 80% delas viverão em países de baixa e media renda. No caso do Brasil estima-se que salte de 31 milhões para 60 milhões de pessoas.
Pouco mais da metade dos idosos brasileiros tem renda até dois salários mínimos, desses 55% é composta por mulheres. Essas pessoas irão precisar do Estado brasileiro mais do que qualquer outra classe social.
Diferentemente de outros países mais desenvolvidos como na Europa, EUA, Canadá, envelhecer no Brasil ainda é um desafio por não ter se preparado adequadamente em sua infraestrutura e atendimento as diversas situações e demandas econômicas, sociais e psíquicas presentes e necessárias a essa fase da vida.
A concepção de velhice presente em cada sociedade vai determinar as atitudes, comportamentos das pessoas, da sociedade e do Estado na forma de ver, tratar, e colocar em pratica as politicas publicas já garantidas em lei e que infelizmente ainda deixam muito a desejar por aqui.
No Brasil temos direitos das Pessoas idosas garantidas na Constituição Federal e no Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003).
Não podemos nos esquecer de que a criação das politicas publicas de proteção as Pessoas Idosas, assim como as de outros segmentos populacionais, são fruto de reivindicação, organização e luta de movimentos sociais na defesa de uma vida digna e de qualidade.
Politicas publicas são compreendidas como ações de responsabilidade do Estado, dirigidas aquelas pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica, que por si só não conseguiriam sair do circulo vicioso de pobreza e de sua reprodução geracional. É uma forma de atenuar a desigualdade social, que infelizmente em nosso país esta entre as maiores do mundo.
Essas politicas são executadas pelas três esferas de governo: federal, estadual e municipal.
O Art. 3º do Estatuto do Idoso afirma que é obrigação da Família, da Sociedade e do Poder Publico, com absoluta prioridade, a efetivação do direito a vida, a saúde, a alimentação, a educação, a cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, a cidadania, a liberdade, a dignidade, ao respeito e a convivência familiar (...).
Em gerações passadas as residências e as famílias eram maiores, nem todos tinham que sair para trabalhar ficando sempre alguém em casa disponível para fazer companhia ao idoso, algo raro nos dias de hoje pela necessidade de complementação do orçamento familiar.
Então, se faz necessário buscar alternativas de novos modelos e arranjos de convivência e moradia onde o isolamento e solidão, comuns nessa fase da vida de muitos idosos, possam ser melhor vivenciados ao lado de pessoas interessantes que entre si criam laços de cooperação e apoio mutuo favorecendo o envelhecimento ativo, saudável e feliz.
Necessário se faz para os que desejam e ainda podem buscar novas alternativas para depender menos do Estado, e de certa forma dar alívio as famílias.
Coshousing que em português significa moradia compartilhada se caracteriza por ser uma comunidade horizontal, autogovernada, que no nosso caso (Cohousing Bem Viver) utiliza a Sociocracia como método de gestão. As decisões são tomadas em conjunto e as lideranças e facilitadores são definidos entre seus membros para levar o trabalho adiante no modo rotativo. É um modelo de moradia e de vida que combina a privacidade com a comunidade, com cultivo de amizade e lealdade entre seus membros.
É um conceito inovador de moradia, surgido na Dinamarca no final dos anos 60, trazido para os EUA pelo arquiteto Charles Durret. Já existe na Europa, nos Estados Unidos e Canadá e esta sendo uma tendência mundial bem aceita.
No Brasil existem algumas iniciativas de cohsousing que ainda estão em fase de discussão e viabilidade de projeto. No caso da Cohousing Bem Viver estamos na fase de aprovação do projeto arquitetônico na prefeitura de Mogi das Cruzes.
A experiência mais conhecida no Brasil é a de um grupo de ex-docentes da Unicamp que em 2017 iniciou o planejamento da Cohousing Vila ConViver, no entanto as obras ainda não começaram.
A experiência Cohousing é diferente de condomínio, onde há o predomínio da individualidade, as pessoas pouco se conhecem e não há interação social nem intenção ativa de uma vida em comunidade. No modo Cohousing as pessoas podem se manter ativas, em interação com as outras, redescobrindo e colaborando com seus talentos e habilidades para o crescimento da comunidade.
Rosalina da Conceção Gomes Alves
Assistente Social e Psicanalista,
Membro efetivo da Cohousing Bem viver
Artigo 23 - O uso da “Comunicação Não Violenta” em Cohousing
O uso da “Comunicação Não Violenta” em Cohousing inspirado no pensamento de Marshall B. Rosenberg
Em razão do convívio próximo e da demanda de tomadas de decisão coletivas, muitas comunidades do tipo Cohousing têm promovido entre seus membros o treinamento em comunicação não violenta (CNV), que propicia um ambiente de empatia, respeito e compreensão mútua.
A comunicação não violenta incentiva a expressão de necessidades e a escuta ativa entre os componentes do grupo, evita padrões de comunicação baseados na agressividade, julgamentos morais e nas críticas destrutivas, para promover um espaço onde todos se sintam valorizados e respeitados em suas perspectivas. O resultado é uma comunicação mais eficaz e colaborativa, além da construção de relações alicerçadas na confiança.
Neste ambiente, todos devem se sentir seguros para expressar suas ideias e opiniões, o que facilita a busca de soluções e/ou a resolução de conflitos de forma construtiva.
Em comunidades que adotam o modelo sociocrático, a Comunicação Não Violenta funciona como o meio de promover o maior nível de compreensão e clareza possíveis entre aqueles que dialogam, tendo como premissa que a consideração de diferentes pontos de vista não anula nenhum deles. Seu objetivo fundamental é remover bloqueios na comunicação entre pessoas com características, interesses e qualidades distintas.
Um exemplo muito citado, quando se fala do tratamento dos diferentes pontos de vista na Comunicação Não Violenta, é o da visão do elefante por um grupo de pessoas.
Se muitas pessoas se colocam próximas do animal, cada uma delas verá apenas uma parte. Uma verá a tromba, outra o rabo, e outra poderá ver uma das orelhas. O que elas veem corresponde efetivamente à realidade do que constitui o elefante, mas se considerarmos todos os pontos de vista, teremos uma visão da realidade muito mais precisa.
O exemplo mostra que o outro vê uma realidade que eu não vejo e que quando consideramos os diferentes pontos de vista, nossa visão da realidade se enriquece. Por outro lado, se permanecemos entrincheirados em nossa perspectiva, nossa visão de mundo torna-se obtusa e reduzida.
Por isso é tão importante nos colocarmos sob o ponto de vista de outras pessoas que compartilham conosco certas experiências, pois, ao fazê-lo, ampliamos nossa visão e várias camadas da realidade se desvelam através do outro com suas características específicas.
Vale ressaltar que não se trata de buscar a modificação das diferentes opiniões. Trata-se, de preferência, da capacidade de imaginação, que é imensamente enriquecedora e favorece a manifestação da inteligência coletiva.
A imaginação nos torna capazes de considerar o que leva uma pessoa a pensar de determinada maneira e a experimentar determinados afetos. Assim, ampliamos nossa realidade e nos abrimos a uma comunicação mais autêntica e harmoniosa.
As comunidades que adotam a “Comunicação Não Violenta” evitam o que Marshall chamou de comunicação alienante. Neste modo de comunicação, buscamos soluções para os debates onde não podemos encontrá-las. Isto é, colocamos nossa atenção em aspectos que não favorecerão a compreensão entre aqueles que dialogam, tornando as trocas esvaziadas de vida e de potência criadora.
O primeiro exemplo de comunicação alienante é o julgamento moral, quando atribuímos algum tipo de erro ou culpa a alguém. Para Marshall, quando agimos dessa maneira, estamos satisfazendo alguma necessidade não reconhecida em nós mesmos. Além disso, quando alguém responde a julgamentos morais, o faz sobretudo por medo ou culpa, mas sente-se sempre afastada de sua própria natureza, o que não contribui para o processo criativo da comunicação.
Outro exemplo de comunicação alienante é a comparação, que implica em elementos presentes em ambientes específicos. Um exemplo concreto, mas ilustrativo, é o da comparação de alturas entre pessoas. Alguém pode ser mais alto ou mais baixo dependendo daqueles com os quais é comparado, o que revela sua natureza ilusória.
Marshall também incentiva a responsabilização por nossos sentimentos e ações. Insiste na ideia de que quando nos responsabilizamos, nos tornamos livres para mudarmos a nós mesmos. Propõe exercícios tais como enunciar frases nas quais separamos o estímulo do ambiente dos sentimentos pessoais: “estou bravo, porque esperava que você executasse a tarefa nestes moldes”.
Assim, embora do ponto de vista teórico a CNV seja bastante simples, é uma ferramenta que tem auxiliado muitas Cohousing em seus processos decisórios. Com o apoio da observação atenta de nossas necessidades e também das dos outros é possível gerar uma comunicação clara e produtiva. Tornamo-nos capazes de descrever de forma mais objetiva o que ocorre em determinada situação, excluindo julgamentos e interpretações subjetivas. Isto promove a elaboração de pedidos explícitos e racionais por parte dos membros da comunidade. Em contrapartida, ao ouvir uma descrição objetiva, o colaborador se abre para entender as perspectivas daquele que fala.
Com a CNV, os afetos, que surgem em qualquer relacionamento humano, são mais facilmente identificados e comunicados de forma respeitosa, fortalecendo os laços dentro do grupo e criando uma ambiência em que todos se sintam atendidos e apoiados.
O entendimento mútuo das necessidades é essencial para a resolução pacífica de conflitos e a busca de soluções que satisfaçam a todos, o que fortalece o sentimento de justiça e equidade na comunidade
Artigo 22 - Senior-cohousings e Casas de repouso
Senior-cohousings e Casas de repouso
Nesses cinco anos de atividades de desenvolvimento da Comunidade Bem Viver (CBV) algumas vezes já me deparei com comentários de pessoas que confundem este projeto a uma casa de repouso. Isto não chega a me surpreender, porque não é raro visualizar empreendimentos comerciais qualificados como “Cohousing” atrelados a uma oferta de serviços diferenciados para o público sénior. Um grande equívoco.
Como arquiteto com experiência em reformas em casas de repouso e agora como um dos fundadores da CBV enxergo diferenças muito significativas entre um modelo e outro. Compreender essas diferenças é essencial para tomar decisões relativas ao envelhecimento e à qualidade de vida.
O modelo de Cohousing que trago aqui é aquele estudado e categorizado pelo arquiteto americano Charles Durret com base em pesquisas de moradias deste tipo que se iniciaram nos anos 70 do século passado na Dinamarca e se espalharam pela Europa e Estados Unidos. Hoje contamos com centenas espalhadas pelo mundo. Ressalto ainda que não temos no Brasil nenhuma Cohousing estabelecida dentro dos parâmetros descritos por Durret, mas diversos projetos em andamento em vários estados de nosso país. O nosso é um deles.
A primeira grande diferença começa no modelo de empreendimento. Cohousing são comunidades intencionais, com planejamento e gestão compartilhada e sem objetivos de lucro financeiro, ao contrário de uma casa de repouso, que é um modelo comercial, com gestão predominantemente autocrática e com o objetivo de ganhos econômicos.
No primeiro, indivíduos ou famílias vivem em habitações privadas dentro de um espaço comum compartilhado, promovendo relações sociais próximas e apoio mútuo, valorizando a independência e autonomia de cada um, proporcionando um ambiente de envelhecimento ativo, onde os residentes têm controle sobre suas vidas e decisões.
Já as casas de repouso são instituições de cuidados de longa duração, oferecendo assistência e cuidados especializados para idosos dependentes que necessitam de acompanhamento contínuo para atividades diárias. Também são oferecidos cuidados médicos e atividades recreativas supervisionadas.
As cohousings promovem o envelhecimento saudável e a inclusão social, permitindo que os idosos permaneçam ativos e envolvidos em suas comunidades, reduzindo o isolamento ao estimular as conexões com os residentes. As casas de repouso desempenham, por outro lado, um papel importante no cuidado de pessoas com necessidades complexas de saúde, oferecendo um ambiente seguro ao dependente.
Ambos os modelos têm seu lugar na sociedade contemporânea e a escolha entre eles deve considerar as necessidades individuais, preferências e valores dos idosos e suas famílias. As cohousings são um modelo que responde plenamente a uma necessidade cada vez mais premente em nossa sociedade, que é a de um grupo cada vez mais numeroso de pessoas que buscam bem-estar e autonomia no ocaso de suas vidas.
Artigo 21 - Sobre COhousing e COmensalidade
Sobre COhousing e COmensalidade
Nunca é demais mencionar que o movimento de COhousing cresce no mundo e que fica, cada vez mais claro, que COmpartilhar e COlaborar são verbos e ações do futuro. Brinco que estamos a caminho de um mundo mais CO, onde transformo CO em prefixo indispensável para nos acompanhar nesse passar tão rápido do tempo...
COexistimos nesse Planeta e assim, nos identificamos e reunimos em um dos melhores lugares: ao redor da mesa! O prefixo é o mesmo, pois falamos da COmensalidade e o objetivo também é igual, pois envolve COmpartilhamento, COnvivência, COlaboração.
Então, vamos falar sobre COmensalidade em uma COHouse.
Não se trata apenas de sentar à mesa e COmpartilhar a refeição, mas começa bem antes, no plantar e colher. Começa no cuidar da terra, semear, aguardar os tempos que as sementes precisam para despertar; aguardar o broto sair da terra e ir em direção ao sol; observar as folhas, as flores, os frutos; perceber, juntos e juntas, o momento de colher.
Por outro lado, os alimentos que não plantamos, compramos de forma COletiva, dividindo despesas e esforços; respeitando as escolhas e as restrições alimentares; percebendo desejos e histórias.
E assim, a cozinha de Todos e Todas se enche de cores, aromas, sabores, para, mais uma vez, de forma COlaborativa, os alimentos serem lavados, porcionados, picados, temperados cozidos, mudando, num piscar de olhos, o cheiro da cozinha COletiva!!!!
Das panelas saem sopas, cozidos, refogados, cujas fumaças tomam posse do ambiente. Nas travessas, saladas coloridas e enfeitadas, convidam os olhos e atraem as curiosidades.
Mesa coletiva arrumada, pratos, cumbucas e talheres a postos, o ruído muda do silêncio do trabalho ao redor dos fogões, para o burburinho alegre ao redor da mesa, com muitos pratos se encontrando e se servindo dos alimentos preparados a muitas mãos, para chegar a muitas bocas e aquecer muitos corações.
E assim, nos sentamos à mesa e mergulhamos nos sabores e texturas; nos perdemos nas conversas e histórias; rimos uns dos outros; compartilhamos nossas dores e inquietudes ... COmpartilhamos alimentos e Vidas.
Artigo 20 - O BEM VIVER: Outro mundo é possível - Por: Rosalina da Conceição Gomes Alves
O BEM VIVER: Outro mundo é possível
“O “bem viver” nasce da experiência de vida coletiva dos povos. Procura a relação entre os seres humanos e destes com a Natureza” (Alberto Acosta).
O Bem Viver é um conceito em aberto e em construção (ou reconstrução) de origem latino-americana que recupera a sabedoria ancestral e critica o processo de acumulação através do esgotamento dos recursos naturais que transforma tudo e todos em coisas.
Faz parte da cosmologia e do modo de vida ameríndio presente nas culturas andinas e amazônicas que, de alguma forma, resistiram ao processo de colonização. Manifesta-se também no Ubuntu da cultura africana.
Constitui-se como base para discussões entre pessoas e grupos que aspiram construir uma sociedade ecológica e socialmente mais justa.
Apresenta-se como uma oportunidade de resgatar uma vida mais sustentável, onde as relações humanas em interação com a Natureza sejam respeitadas, valorizadas e vivenciadas. Os princípios do Bem Viver são: a interculturalidade, as práticas econômicas justas e solidárias, com lógicas democráticas de enraizamento comunitário.
O Bem Viver pode ser considerado uma proposta holística que deve ser entendida como categoria em permanente construção e reprodução, compreendendo a diversidade de elementos a que estão condicionadas as ações humanas que levam ao Bem Viver: o conhecimento, os códigos de conduta ética e espiritual, a relação com o entorno, onde se vive os valores humanos, a visão de futuro, entre outros.
Podemos dizer que a real contribuição do Bem Viver está na criação de possibilidades de abrir diálogo e na oportunidade de reflexões sobre o modo de vida dos seres humanos no planeta.
Uma das maiores contribuições desta perspectiva seria a construção coletiva de pontes entre os conhecimentos ancestrais e os modernos, considerando que a construção desses conhecimentos é fruto de um processo social, politico e econômico.
O Bem Viver é um ordenamento social fundamentado na vigência dos Direitos Humanos e dos Direitos da Natureza, inspirado principalmente na reciprocidade e na solidariedade. Na visão de Célio Turino, trata-se de:
“Criar espaços comunitários como formas ativas de organização social. A própria democracia tem de ser repensada e aprofundada.... Nosso mundo deve ser recriado a partir do âmbito comunitário como consequência, temos de impulsionar um processo de transição movido por novas utopias. Outro mundo será possível se for pensado e organizado comunitariamente a partir dos Direitos Humanos – políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais dos indivíduos, das famílias, dos povos e dos Direitos da Natureza”.
As expressões mais conhecidas do Bem Viver remetem aos idiomas originários do Equador e da Bolívia.
No Equador é usada a palavra Buen Vivir, na Bolívia Vivir Bien. No Brasil, encontramos a expressão Teko Porã dos guaranis. Teko se refere à vida e a vivência em comunidade; Porã ao belo, bonito e bom”.
“Bem Viver” é a tradução que mais respeita o termo “Buen Vivir”, utilizado por Alberto Acosta, e também o termo “sumak Kawsay” do Kichwa, língua da qual nasceu o conceito em sua versão equatoriana.
No Equador, foi possível incluir na Constituição Federal, em 2008, os Direitos da Natureza, após grande mobilização de setores sociais de representação dos povos andinos locais que ainda resistem.
Na Bolívia, em 2009, também foi aprovado em Assembleia Constituinte os Direitos da Natureza, incluídos a partir de então na Constituição Federal, na qual não encontramos, no entanto, o mesmo biocentrismo que na Constituição Federal do Equador, onde foi outorgado um posto importante à Pacha Mama ou à Mãe Terra. A defesa dos recursos naturais, na Constituição Federal da Bolívia, ficou presa às ideias clássicas do progresso baseadas na apropriação dos recursos da Natureza.
A harmonia entre seres humanos e natureza é o norte da filosofia do Bem Viver, que traz em seu alicerce a ideia de construção e esforço coletivos, que na concepção dos povos indígenas pode se traduzir literalmente na construção de moradias, mas também em outras atividades que envolvem o trabalho, pensado sempre em caráter de bem comum.
A partir desta perspectiva há que se consolidar e ampliar a vigência dos Direitos Humanos e dos Direitos da Natureza, vistos como ponto de partida para a construção de sociedades democráticas, assegurando uma efetiva participação cidadã e comunitária.
Superar as forças de setores conservadores nas sociedades que elegem o modelo econômico desenvolvimentista predador da Natureza é o grande desafio para que o Bem Viver se torne uma realidade na vida das pessoas, especialmente nos dias de hoje onde o que impera é o individualismo.
Nós da Cohousing Bem Viver nos inspiramos nesses conceitos filosóficos e holísticos como modelo comunitário a ser vivenciado que possam nos levar a construir a “sociedade” que tanto aspiramos, com respeito entre seus membros, à realidade de vida do entorno, e à Natureza em todas as suas formas de manifestação.
O Bem Viver é um desafio que estamos dispostos a vivenciar enquanto comunidade 50+ que está sendo implantada no Município de Mogi das Cruzes no Estado de São Paulo.
Rosalina da Conceição Gomes Alves: - Assistente Social; Psicanalista; Defensora dos Direitos Humanos e da Natureza – Membro efetivo da Cohousing Bem Viver.
Artigo 19 - Por que Cohousing é inovador? - Por: Norival de Oliveira
Por que Cohousing é inovador?
Conceitualmente, Cohousing é um modelo de habitação colaborativa e comunitária em que um grupo de pessoas decide viver juntas em uma comunidade intencional. Nesse modelo, os moradores têm suas próprias residências privadas, mas também compartilham espaços comuns, recursos, atividades, diversão e uma série de responsabilidades comunitárias. São comunidades projetadas para promover interações sociais, apoio mútuo e sustentabilidade ambiental, e porque não dizer, alegria, leveza e bem-estar.
No Brasil, pouco ainda se conhece o que é “Cohousing”, mas após um breve contato com o conceito que a rege, você logo saberá que de fato ele é Inovador, pois traz algo inédito, original e, ouso dizer, revolucionário no campo da moradia, já que provoca as pessoas a pensarem de forma criativa, diferente do padrão estabelecido e a buscar soluções únicas para desafios ou problemas existentes. Como exemplo, posso citar que o grupo não se constitui juridicamente como um condomínio, nem como um abrigo para idosos e, além disso, você vai conhecer os seus vizinhos antes de ir morar na comunidade.
Há muitas razões pelas quais a cohousing é considerada inovadora, examinemos algumas delas:
A Comunidade: O conceito de cohousing baseia-se no de comunidades intencionais, onde os residentes escolhem viver juntos com o propósito de criar laços sociais mais fortes e compartilhar recursos. O bem mais precioso da Comunidade são as pessoas, seu histórico de vida, seu conhecimento e sua trajetória. São as pessoas que garantem a vibração e o pulsar constante do organismo vivo que é. Viver em comunidade nos dias atuais por si só já é inovador, pois se opõe à tendência atual do “cultivo do individualismo” e do isolamento. É comprovado que a vida em comunidade gera uma série de benefícios significativos para os indivíduos que nela vivem e para a sociedade como um todo. Além disso, proporciona um ambiente onde os membros podem se apoiar mutuamente em tempos tão difíceis, compartilhando muitas experiências e emoções. Isso pode promover um maior bem-estar emocional e mental. Oferece ainda, um senso de pertencimento e conexão com os outros. Os membros se sentem parte de algo maior do que eles mesmos, o que pode levar a uma maior satisfação e felicidade. Por fim, citando somente as principais razões, as comunidades oferecem oportunidades para as pessoas colaborarem e cooperarem em projetos e atividades comuns, resultando em maior eficiência, criatividade, troca de conhecimentos e realização de objetivos compartilhados.
Design Participativo: Os moradores têm a oportunidade de participar ativamente da escolha do terreno onde se instalará a comunidade, da concepção do projeto arquitetônico e do design da organização do espaço, o que permite a adaptação das instalações às suas necessidades específicas.
Compartilhamento de Recursos: As comunidades de cohousing geralmente compartilham recursos como áreas comuns, equipamentos, etc, o que pode reduzir os custos individuais e promover um estilo de vida mais sustentável.
Laços Sociais Fortalecidos: Ao viver em proximidade física e compartilhar atividades diárias, os moradores desenvolvem laços sociais mais fortes e um senso de comunidade mais profundo do que em muitos outros tipos de arranjos habitacionais.
Sustentabilidade: a sustentabilidade ambiental em seu design e estilo de vida é algo insubstituível nas comunidades do tipo cohousing. Nelas incorporamos características como eficiência energética, uso de materiais ecológicos e práticas de vida sustentável.
Envelhecimento em Comunidade: também é uma opção inovadora para pessoas 40+ (com mais de 40 anos), oferecendo um ambiente onde podem envelhecer com apoio mútuo e comunitário, mantendo ao mesmo tempo sua independência, além de contar com uma rede de apoio interna em tempos de necessidade, como durante crises ou emergências.
A ideia de um futuro mais colaborativo tem ganhado destaque em diversos campos, incluindo economia, tecnologia, habitação e a sociedade em geral. As comunidades intencionais são uma das possibilidades de vivenciar este futuro agora.
Cabe destacar que a colaboração oferece muitos benefícios, mas também desafios e questões a serem considerados – “nem tudo são flores”. Como em qualquer grupo de pessoas, é preciso administrar questões de convivência, privacidade, segurança, governança, dentre outros. O futuro colaborativo dependerá de como cada grupo enfrenta esses desafios e busca soluções que equilibrem a colaboração com outros valores e necessidades.
De qualquer forma, acredito que a humanidade se beneficiará cada vez mais de uma maior colaboração entre os indivíduos, comunidades, organizações e nações. Cohousing é uma pequena célula neste universo que pode funcionar como um laboratório para promover a resolução de diferenças por meio do diálogo, negociação e cooperação, resultando em soluções mais satisfatórias e duradouras.
Nesse tempo de dedicação ativa para a constituição da Cohousing Bem Viver, pude verificar que a colaboração eficaz requer comprometimento, comunicação aberta, respeito mútuo e uma abordagem sempre inclusiva. Além disso, a colaboração não significa necessariamente abrir mão dos interesses individuais ou de autonomia. Se viver em uma comunidade do tipo cohousing for o seu projeto de vida, você encontrará maneiras de trabalhar coletivamente para alcançar objetivos comuns de forma mais eficaz e sustentável.
E vale todo esforço, toda dedicação, quando não se trata de trabalho, mas de amor em ação*, quando o que se faz é para construir um mundo melhor, mais humano, digno e sustentável para nós e para os que virão.
Norival de Oliveira: pai, amigo, economista, sócio e um dos fundadores da Cohousing Bem Viver.
*O conceito de “amor em ação”, verdadeiro significado de “trabalho”, é central na filosofia da Comunidade de Findhorn - www.findhorn.com e refere-se à ideia de manifestar o amor de forma prática, agindo de maneira compassiva e consciente no mundo.
Artigo 18 - O Caminho de Volta - Por Marisa Fumanti
O Caminho de Volta*
O Caminho de Volta representa mais do que uma mera fuga da agitação urbana; é um retorno à essência, à conexão perdida com a simplicidade e os ritmos naturais. A vida na cidade, marcada pelo incessante corre-corre diário, deixou um rastro de exaustão e melancolia. A falta de tempo para relações significativas, seja com filhos, parentes ou amigos, transformou espaços que deveriam ser acolhedores em ilhas solitárias entre os altos edifícios, onde os cumprimentos são meros protocolos desinteressados.
A pandemia, que trouxe consigo uma onda de reflexão e reavaliação de prioridades, amplificou o desejo de migrar para o interior. As razões foram além da busca por segurança sanitária; culminou com a busca por uma vida mais autêntica e equilibrada. A proximidade com a natureza tornou-se uma âncora, oferecendo a tranquilidade interiorana como antídoto para o estresse cotidiano dos grandes centros urbanos.
Nesse retorno às raízes, redescobre-se a importância da comunidade. Os vizinhos tornam-se mais do que meros rostos desconhecidos; são companheiros de jornada, dispostos a compartilhar experiências e apoio mútuo. A possibilidade de cultivar uma pequena horta não é apenas uma atividade de plantio, mas uma reconexão com ciclos naturais e com a terra que nutre e sustenta.
Observar o pôr do sol e as estrelas torna-se um ritual sagrado, no qual se resgata o contato perdido com o cosmos. A urbanidade, que antes isolava as pessoas umas das outras, dá lugar a uma interdependência renovada. O caminho de volta à ancestralidade é, muitas vezes, um percurso lento, mas definitivo para aqueles que enfrentaram os desafios e as angústias dos grandes centros urbanos.
Expandir os horizontes em direção ao interior não é apenas uma fuga, mas uma reconexão profunda. É um movimento em direção à saúde mental, à qualidade de vida e à harmonia com o meio ambiente.
À medida que mais pessoas seguem esse caminho, cria-se uma mudança cultural, uma revolução silenciosa que desafia a narrativa da necessidade incessante de urbanização.
O Caminho de Volta é, afinal, uma jornada de redescobrimento e cura, um retorno à simplicidade que traz consigo a promessa de uma vida mais plena e significava.
Nós, vizinhos da Cohousing Bem Viver, somos testemunhas vivas do Caminho de Volta, pois fazemos a jornada em direção a um sonho que se materializa diante de nossos olhos. O que começou como uma visão agora se torna uma realidade palpável, uma comunidade em formação que em breve ganhará vida em meio a uma exuberante natureza.
Acreditamos na realização desse projeto que, em 1 ou 2 anos, nos acolherá em um ambiente que vai além das paredes de nossas casas, pois será um espaço onde a interdependência e a conexão com a natureza serão pilares fundamentais.
Em meio a uma vastidão verde, veremos nosso desejo de viver de forma mais harmoniosa com o entorno se concretizar, cultivando não apenas um lar, mas um estilo de vida compartilhado.
Cada um de nós que abraçou este caminho sabe exatamente o que quer. Temos a visão clara de onde desejamos estar e, mais importante, com quem desejamos estar. É um compromisso não apenas com um lugar físico, mas com uma comunidade de almas afins, prontas para compartilhar experiências, aprendizados e apoio mútuo.
A construção iminente de nossa comunidade é um testemunho de que o Caminho de Volta é não apenas uma ideia, mas uma transformação concreta. Estamos moldando nosso próprio destino, afastando-nos do frenesi urbano para abraçar a serenidade da vida em comunidade. Este é um capítulo emocionante e inspirador de nossas vidas, e mal podemos esperar para ver os frutos de nossa dedicação e visão coletiva florescerem no seio da natureza que nos acolhe.
No Caminho de Volta, não apenas encontramos um lugar para chamar de lar, mas também descobrimos uma família escolhida, uma comunidade que compartilha não apenas o espaço, mas o compromisso com um modo de vida mais consciente, sustentável e integrado. E assim, nossa jornada continua, rumo a um futuro que construímos juntos, reafirmando que o retorno à simplicidade é, de fato, uma jornada de realizações e descobertas.
*Marisa Fumanti, membra da CBV
Artigo 17 - Como vim parar aqui! - Por Geni Schkolnick
Como vim parar aqui!!!
Sou paulistana, sempre gostei muito de São Paulo, participo de muitas atividades culturais aqui.
Com o tempo, São Paulo se tornou um lugar difícil, com trânsito caótico, e com baixo nível de segurança pública
Eu e meu marido começamos a frequentar o município de Gonçalves, que se tornou nossa válvula de escape, por ser um local com natureza, mata, cachoeiras, montanhas, e, portanto, favorável para recarregar as baterias e encarar a vida na metrópole.
Chegamos a cogitar a possibilidade de morar lá, mas não era possível, pois continuávamos a trabalhar em SP, tínhamos uma filha na escola e uma família que dependia da gente.
Começamos a pensar na ideia de sair de São Paulo no futuro. Queríamos um lugar próximo, em razão do trabalho e da família, onde tivéssemos contato com a natureza, e um pouco mais de tranquilidade do que na capital.
A pandemia de Covid-19 reforçou nosso desejo de não estarmos presos num apartamento sem poder sair e encontrar pessoas.
Começamos a pensar em constituir uma comunidade com um grupo de amigos, uma Cohousing. Reunimo-nos online em torno dos mesmos interesses, ou pelo menos achávamos que tínhamos os mesmos interesses. Nas reuniões ficou bem claro que não seria algo simples, pois cada um tinha desejos diferentes: alguns queriam morar na praia, outros no campo, outros queriam piscina com raia para nadar, outro desejava ter um cavalo!!!
Percebemos a dificuldade em que nos encontrávamos. Solicitamos a uma amiga que fizesse a mediação das reuniões, para nos ajudar a levar o projeto adiante. Acabamos, no entanto, por desistir da proposta.
A ideia de morar numa comunidade sempre fez sentido pra mim. Queria um lugar onde pudesse compartilhar experiências, ficar junto com pessoas, e ter uma rede de apoio quando fosse necessário.
Sempre antenada neste tema, comecei a seguir nas redes sociais algumas comunidades do tipo Cohousing e ecovilas.
Assim, conheci a Cohousing Bem viver numa live, na qual deixaram um contato para maiores esclarecimentos.
Para nos tornar sócios da Cohousing Bem Viver passamos por um processo de conhecimento das atividades da comunidade e por uma fase de transição, pra aprofundar as relações pessoais, conhecer os membros e compreender como a Cohousing funcionava. Tivemos, então, a certeza de que estávamos no lugar certo! Tivemos a impressão de que os processos de trabalho eram bem embasados, estruturados e efetivamente construídos em grupo.
A CBV já tinha adquirido o terreno: uma área verde linda, que incluía uma APP, um lago, um poço artesiano, e estava apenas a 1 km de estrada de terra de Mogi das Cruzes (cidade de fácil acesso a São Paulo por trem ou carro).
Chegamos na hora certa! Assim, teremos nossa casa num lugar lindo, com muito verde, muitos amigos pra conviver, podendo ter uma qualidade de vida melhor nessa fase da vida.
Por Geni Schkolnick, sócia da CBV
Artigo 16 - O que os povos originários da América podem nos ensinar sobre o Bem Viver?
O QUE OS POVOS ORIGINÁRIOS DA AMÉRICA PODEM NOS ENSINAR SOBRE O BEM VIVER?*
Em 2018, um grupo heterogêneo de comunidades indígenas localizadas na América do Sul e grupos do terceiro setor juntaram-se para explorar o discurso sobre o “bem viver” que circulava nas comunidades indígenas em questão.
A ideia do Bem Viver sempre esteve presente na cosmologia dos povos ameríndios e não deve ser confundida com viver melhor. Viver melhor implicaria em uma espécie de comparação; um indivíduo ou povo viveria melhor do que outros e/ou às custas de outros.
A proposta de 2018 mencionada acima era resgatar e registrar os modos de vida destes agrupamentos indígenas, desarticulados pelo mundo moderno, ao valorizar modos tradicionais, consistentes e promotores de bem estar. Buscava-se, ao mesmo tempo, tornar o discurso sobre tais práticas uma ferramenta de resistência nos estados nação que ameaçavam sua existência.
Tratava-se de legitimar saberes e conhecimentos dos povos indígenas como alternativos ao modelo desenvolvimentista predatório da vida e das relações sociais, além de gerador de graves problemas climáticos.
Este movimento esteve afinado à perspectiva de Ailton Krenak que ressalta que durante quase cinco séculos, os indígenas foram pensados como seres efêmeros e em transição: transição para a cristandade, a civilização, a assimilação, ou para o desaparecimento. Isto, no entanto, mudou, pois passamos a reconhecer que as sociedades indígenas são parte não apenas de nossa história, mas de nosso futuro, pois ocupam um lugar de referência na construção de novos cenários em um planeta que se aproxima do colapso ambiental, por ter levado até as últimas consequências a lógica capitalista tanto no âmbito das relações humanas como no do meio ambiente.
O sucesso dos livros A queda do céu de Davi Kopenawa (2013) e Ideias para se adiar o fim do mundo de Ailton Krenak (2019) denota o interesse atual pelo modo de vida dos povos originários e por aquilo que eles podem ensinar sobre a relação com a alteridade e com a natureza.
Este debate reaviva a sugestão do sertanista brasileiro Cláudio Villas-Bôas, quando disse: “Se acharmos que o nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios tem lições extraordinária para nos dar”. E isto porque há muito tempo os povos originários das Américas têm pensado sobre o que é o Bem Viver que inclui, é claro, uma multiplicidade de dimensões. Proporemos, no entanto, com o intuito de transmissão, uma breve síntese do que seria este conceito, mesmo advertidos do empobrecimento que impingimos às complexas cosmovisões destes povos.
Em linhas gerais pode-se dizer que o Bem Viver requer, primeiramente, o reconhecimento de que estamos inexoravelmente ligados à mãe terra - sensível inteligente e imprevisível. Demanda a consideração de que não há cisão entre seres humanos, seus ancestrais, os demais seres vivos e toda a natureza. O equilíbrio entre estes elementos apresentando-se como o principal potencializador de algum tipo de bem estar.
O Bem Viver rejeita os processos de desenvolvimento extrativista e defende um convívio harmônico com os biomas. Além disso, busca a plurinacionalidade, a interculturalidade, e a capacidade de apoio mútuo.
Quem vive bem é quem convive bem, porque é acolhido por todos e sabe acolher a todos sem que se pretenda eliminar as diferenças.
Assim, manter a harmonia da aldeia é responsabilidade das lideranças indígenas que zelam pelo bem-estar das pessoas, intermediando conflitos e combatendo doenças.
Quando os fundadores de nossa comunidade intencional decidiram batizá-la com o nome indígena Bem Viver, Teko Porã no guarani, é porque este conceito inspira nosso modo de vida no coletivo e no planeta terra.
Se o modelo de Cohousing chegou ao Brasil a partir de experiências do hemisfério norte, não devemos esquecer de que bem ao nosso lado existem povos que detém um saber milenar sobre o que é o convívio estreito em uma aldeia.
Com imensa consideração pelo saber dos povos que por aqui sempre estiveram e em sintonia com eles, asseguramos o que se encontra em nosso horizonte e que podemos resumir do modo que se segue: a busca da reconfiguração de nossos modelos de cidade e de relação com nossos espaços, o convívio harmônico com a natureza, a produção de trabalho dissociada da destruição, o cultivo de alimentos sem veneno, o resgate do senso de vida comunitária, a ênfase nos diversos processos de integração, o fomento de relações entre pessoas que se cuidam em uma aldeia, a consciência de cada momento presente, a busca pelo equilíbrio, e o convívio com a diversidade.
*Por Monica Assunção Costa Lima, sócia e futura moradora da CBV.
Artigo 15 - Como as relações humanas interferem na longevidade.
COMO AS RELAÇÕES HUMANAS INTERFEREM NA LONGEVIDADE*
Na última década, pesquisas sobre longevidade mostraram que nossas comunidades e círculos sociais desempenham um papel mais significativo na determinação de nossa expectativa de vida do que se pensava.
Quando se trata de envelhecimento saudável, as interações sociais podem ser o que nos leva ao ponto de inflexão para uma vida longa e saudável.
Não há dúvida de que as escolhas de estilo de vida e a genética desempenham papéis importantes tanto em nossa saúde quanto em nossa expectativa de vida. Nossa dieta, nível de atividade, hábitos e nossa genética previnem doenças e afetam a longevidade.
E é sobre essa conexão entre relações humanas e longevidade saudável que tratamos no artigo que compartilhamos abaixo. Siga a leitura e tire suas dúvidas!
CBV em confraternização, na hora da refeição, preparada coletivamente e compartilhada entre todos.
A importância da conexão humana
A integração social está associada a uma maior satisfação com a vida, melhor saúde e maior expectativa de vida. Pessoas com amplas redes sociais são mais propensas a serem felizes, ter menos problemas de saúde, ter melhor saúde mental e uma longevidade saudável.
A segurança e o apoio experimentados em nossas conexões ajudam a acalmar nosso sistema de resposta ao estresse, mantendo afastadas as doenças viciosas relacionadas ao estresse.
Por outro lado, a falta de conexão social pode contribuir para ansiedade, depressão e doenças relacionadas ao estresse, como inflamação, diabetes tipo 2 e câncer.
No geral, o isolamento social pode aumentar nossa taxa de mortalidade em 91% e contribuir para a morte prematura.
Da esquerda para a direita, Regina Celi, Cris Seixas e Marisa Fumanti, curtindo a praia com a Comunidade Bem Viver.
O que diz a ciência
De acordo com a American Psychological Association, os indivíduos que se voluntariam para fins altruístas e exibem um desejo de conexão social têm taxas mais altas de longevidade e satisfação com a vida.
A pesquisa atual também reflete essa ideia, indicando que os indivíduos que têm relacionamentos saudáveis e solidários com os outros experimentam uma expectativa de vida mais longa do que aqueles que não têm.
A razão para o fenômeno pode ser que os laços sociais ajudam a amortecer eventos estressantes da vida e melhorar a resiliência mental e fisiológica.
Artigo 14 - Depressão é quatro vezes mais comum entre idosos que relatam se sentirem sempre sozinhos, apont a estudo da Unicamp.
DEPRESSÃO É QUATRO VEZES MAIS COMUM ENTRE IDOSOS QUE RELATAM SE SENTIREM SEMPRE SOZINHOS, APONTA ESTUDO DA UNICAMP
A Unicamp realizou este importante estudo que relaciona a solidão com os quadros depressivos, principalmente entre as mulheres.
O “Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros - ELSI-Brasil” (acesse a íntegra em https://lnkd.in/dnvNYYrk) é resultado de pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) publicada na sexta-feira passada (21/07/2023) na revista “Cadernos de Saúde Pública”.
O estudo aponta que a depressão é quatro vezes mais comum entre idosos que relatam se sentirem sempre sozinhos – e o risco de desenvolver a doença dobra pelo simples fato de morar só. A pesquisa aponta, ainda, que é mais provável que mulheres com mais de 80 anos que nunca frequentaram a escola se sintam frequentemente sozinhas ou solitárias.
Na Cohousing Bem Viver, consideramos alternativas para minimizar os impactos da solidão à população objeto deste estudo, constituindo um ambiente de moradia comunitário e interdependente, onde a solidão efetivamente será incapaz de se estabelecer. Venha conhecer nossa proposta: https://lnkd.in/dRmQ2qZR
Artigo 13 - Sonhei com um Cohousing antes de conhecer o conceito - Por: Cris Seixas
SONHEI COM UM COHOUSING ANTES DE CONHECER O CONCEITO*
O momento de meu ingresso na CBV foi muito interessante. Eu estava vivendo a crise da menopausa, com todos os calores, insônias e desconfortos.
Desenvolvi uma hipertensão e algumas amigas me aconselharam a retornar à metrópole. Entretanto, não era o que eu queria, já que gosto de viver afastada de grandes áreas urbanas, em um lugar de paz.
Eu nunca tinha ouvido falar de Cohousing, mas inspirada pelos valores do cooperativismo, do compartilhamento e pelo conceito de coworking, sugeri às amigas a compra de um terreno onde cada uma construiria sua casa em torno de um espaço circular, onde plantaríamos um jardim. Estabeleci também algumas premissas: seria um lugar arborizado, próximo à estação de trem, e com muita água.
Na segunda conversa com o grupo, quando discutiríamos o lugar potencial para a compra do terreno, minhas amigas já haviam desistido do projeto e eu fiquei extremamente frustrada.
Foi durante a visita de um amigo, a quem contei o ocorrido, que soube que uma amiga dele tinha um projeto muito semelhante a ser realizado em Mogi das Cruzes.
Mogi não era minha primeira escolha, mas resolvi conhecer a proposta. Logo depois, descobri que eu já conhecia essa amiga de meu amigo. Era a Beth, e participávamos todos do Batuque. Acabei entrando para a CBV.
De longe, essa foi a experiência mais interessante que vivi em nossa comunidade, pois não me vejo vivendo sozinha em um sítio, nem em uma ecovila - pois preciso de alguma privacidade – e me vejo, ainda menos, vivendo em um condomínio.
Fiquei muito feliz por ter encontrado este grupo, pois é a melhor oferta para este momento de minha vida!
*Cris Seixas associou-se à CBV em 2023.
Artigo 12 - De Camboriú para a Cohousing Bem Viver - Por: Ana Lúcia Hernandez
DE CAMBORIÚ PARA A COHOUSING BEM VIVER*
Há 20 anos já tinha o sonho de morar em uma Cohousing. Participei de grupos que buscavam a realização deste projeto tanto em Porto Alegre quanto em Santa Catarina. Cheguei a ter uma casa numa comunidade por 10 anos.
Após a pandemia essa comunidade alterou seus princípios, tornando-se um condomínio rural. Desfiz-me da casa e o sonho continuou. Encontrei a Bem Viver no Instagram e meu coração bateu forte...
Imediatamente entrei no período de transição (período em que o interessado aprofunda seu conhecimento sobre a organização e o funcionamento do grupo).
Comecei a participar ativamente dos grupos pela internet e no final da pandemia organizamos um encontro presencial no Jardim Botânico, em São Paulo.
Viajei de Santa Catarina a São Paulo para o encontro presencial. Conheci boa parte das pessoas envolvidas no projeto e me senti acolhida como se estivesse em família. Voltei em dezembro para confraternização de fim de ano.
Em janeiro, mudei-me para São Paulo para me aproximar ainda mais das pessoas e para me dedicar com mais afinco ao meu sonho que encontrara eco na Cohousing Bem Viver.
Desde então trabalho no grupo que acolhe os novos interessados e também aqueles que decidem entrar no período da transição.
Tenho muita gratidão por esse encontro de almas! Todos da Cohousing Bem Viver são minha família e são aqueles com quem escolhi passar essa última etapa da vida !!!!
*Ana Lúcia é sócia da CBV e articuladora da chegada de novos membros à nossa Comunidade.
Artigo 11 - 30 anos depois... - Por: Marisa Fumanti
30 ANOS DEPOIS...*
Aos 30 anos, tinha um sonho de morar em comunidade, uma comunidade que eu imaginei. Ela tinha uma casa coletiva no centro onde as pessoas pudessem se encontrar e dividir alegrias, tristezas, diversão, mas havia também outras casas, ao redor, para utilização individual, garantido assim a privacidade de cada morador. Falei com vários amigos e amigas, mas não ecoou esse sonho em ninguém, todos receberam a proposta com estranheza e por alguns fui taxada de louca, por outros de ter um pensamento de uma velha, enfim, desiludida, enfiei minha viola no saco e acreditei ser só um sonho maluco.
30 anos depois... faço um curso de Compliance para o Terceiro Setor, na Faculdade de Administração da USP e encontro um aluno de nome Norival, com quem conversei algumas vezes durante as aulas, que aconteceram em 2019. Em 2020, recebi uma mensagem deste colega de sala me convidando para conhecer um projeto no qual ele estava envolvido, chamado Cohousing Bem Viver. Curiosa como sou, fui pesquisar do que se tratava e fui capturada pela emoção ao ver que meu antigo sonho poderia ressuscitar.
Não me foi possível assistir às reuniões logo que fui convidada, porque estava com minha mãe doente e precisando de mim, mas assim que foi possível comecei a participar dos encontros. Não tinha ali os amigos que imaginava conviver, mas tinha um grupo de pessoas muito interessante, pessoas inteligentes, disponíveis, acolhedoras e que permitiam muita troca e momentos muito aprazíveis.
Descobri então, que os amigos nem sempre partilham de seus ideais, mas que as pessoas que partilham o mesmo ideal, tem tudo para se tornarem grandes amigos. Assim foi minha entrada na Cohousing e minha única objeção na compra do terreno era que não fosse em Mogi das Cruzes, porque morando em Mairiporã, gostava mais do lado de cá. Quando o terreno se apresentou a nós, em Mogi das Cruzes, imediatamente percebi que o lugar, pouco importava, mas as pessoas, o conceito do projeto e a busca, ainda que inconsciente deste sonho, por mais de 30 anos, eram as pedras fundamentais da minha decisão.
Agradeço ao Universo que conspirou para que meu sonho se tornasse realidade no devido tempo, colocando no meu caminho o Nori, a quem terei uma gratidão eterna.
*Marisa Fumanti, sócia da CBV e participante do grupo desde 2021.
Artigo 10 - Quando recheamos nossa casa caipira com móveis, sonhos e alegria! - Relato de Teresa por Mônica Lima
Temos uma casa caipira no terreno da Cohousing Bem Viver, e assim que tivemos acesso às chaves do imóvel, um desejo do grupo foi arrumá-la da forma mais aconchegante possível, para usá-la nas oportunidades que se apresentassem no futuro. Assim, eu e José doamos alguns móveis para a Cohousing, com o intuito de ajudar no cumprimento deste objetivo. José usou o caminhão de sua empresa para o transporte.
Um fato que me marcou e do qual não me esqueço, foi o bate volta São Paulo / Ubatuba / Mogi das Cruzes / São Paulo transportando os tais móveis que deveriam compor a casa caipira, em um dia muitochuvoso. Chovia sem parar, e eu só pensava no que seria dos móveis expostos a tanta água!
Fiquei emocionada quando os móveis chegaram e Regina documentou a chegada com fotos. Este fato assumiu um grande significado para mim. Fiz a seguinte leitura: Estava me desapegando de algo, que possivelmente ultrapassava os móveis em si. Além disso “Nossa casa” (a CBV) se concretizava, ainda que de forma temporária.
Artigo 9 - Como a vivência em um ambiente próximo à natureza pode beneficiar a saúde de adultos com mais de 50 anos de idade - Por Cohousing Bem Viver
COMO A VIVÊNCIA EM UM AMBIENTE PRÓXIMO À NATUREZA PODE BENEFICIAR A SAÚDE DE ADULTOS COM MAIS DE 50 ANOS DE IDADE.
A vivência em um ambiente próximo à natureza pode trazer uma série de benefícios para a saúde de adultos com mais de 50 anos de idade. Aqui estão alguns dos principais benefícios e mudanças no estilo de vida que podem ocorrer.
Redução do estresse:
Estudos têm mostrado que a exposição à natureza pode reduzir os níveis de estresse. Aproximar-se da natureza, como passar tempo em áreas verdes, pode ajudar a diminuir a pressão arterial, reduzir a produção de hormônios do estresse e melhorar o bem-estar emocional.
Atividade física:
Viver próximo à natureza muitas vezes incentiva a atividade física. Caminhadas, passeios de bicicleta, jardinagem e outras atividades ao ar livre são mais acessíveis em ambientes naturais. Isso pode ajudar os adultos mais velhos a manter uma vida ativa e saudável.
Ar mais limpo:
A qualidade do ar em áreas rurais ou próximas à natureza geralmente é melhor do que em áreas urbanas congestionadas. Isso pode beneficiar a saúde pulmonar e cardiovascular, especialmente para pessoas com condições respiratórias pré-existentes.
Melhoria na saúde mental:
A natureza tem um efeito positivo na saúde mental. Passeios na natureza podem ajudar a reduzir os sintomas de ansiedade e depressão, promover sentimentos de relaxamento e melhorar o humor.
Alimentação mais saudável:
Viver próximo à natureza muitas vezes está associado a uma dieta mais saudável, com acesso a alimentos frescos e locais. Isso pode levar a uma alimentação mais equilibrada e rica em nutrientes.
Vida social ativa:
Comunidades rurais e áreas próximas à natureza muitas vezes promovem um senso de comunidade mais forte. Isso pode levar a uma vida social mais ativa e apoio social, o que é importante para a saúde emocional e mental.
Menos poluição sonora:
Ambientes naturais tendem a ser mais silenciosos do que áreas urbanas, o que pode melhorar a qualidade do sono e reduzir a exposição a ruídos prejudiciais à saúde.
Menor custo de vida:
Em muitos casos, viver em áreas rurais ou próximas à natureza pode ser mais acessível do ponto de vista financeiro do que em áreas urbanas, o que pode aliviar o estresse financeiro.
Em termos de mudanças no estilo de vida, viver próximo à natureza pode levar a uma maior apreciação pela vida ao ar livre e um ritmo de vida mais tranquilo. Os adultos com mais de 50 anos podem adotar hábitos mais saudáveis, como passar mais tempo ao ar livre, adotar uma dieta mais equilibrada, se envolver em atividades físicas regulares e desenvolver uma maior conexão com a comunidade local.
Artigo 8 - Cohousing como um modelo de sociedade saudável: revisão da literatura. Tradução livre e resenha por Mônica Lima.
COHOUSING COMO UM MODELO DE SOCIEDADE SAUDÁVEL: REVISÃO DA LITERATURA
Esta é uma síntese do artigo das autoras Elyse Warner, Emma Sutton e Fiona Andrews, respectivamente ligadas à School of Health and Social Development, Faculty of Health, Deakin University, Burwood, Austrália. O resumo foi elaborado a partir de uma livre tradução do inglês para o português.
Introdução
Conexões sociais são fundamentais para a boa saúde física e mental. Tomamos saúde social, aqui, como a habilidade de uma comunidade para desenvolver relações carregadas de significado para os sujeitos envolvidos, e inseridas em rede de apoio que promova a redução de fatores causadores de doenças.
Temos observado que o isolamento social não apenas determina danos à saúde mental, mas também aumenta o risco de morte prematura.
Existem evidências de que o isolamento social nas cidades tem aumentado em países ocidentais. No Reino Unido, o Ministério da Solidão foi recentemente instituído, enquanto na Austrália várias organizações combatem a solidão como um problema de saúde pública.
O lugar onde se habita é fundamental no que diz respeito ao isolamento social. A solidão é um afeto experimentado principalmente dentro das quatro paredes de uma casa. Está concentrada espacialmente em alguns tipos de moradia, quando comparadas com outras que promovem a sociabilidade, a responsabilidade cívica e o sentimento de pertencimento a uma comunidade.
Pessoas se mudam para comunidades de cohousing por diferentes razões, entre elas: o desejo de viver em comunidade, a insatisfação com o modelo de convivência em família, o desejo de fazer amigos ou de desenvolver relações de apoio com os vizinhos, a preferência por estilos de vida ecologicamente mais sustentáveis.
O estilo de moradia cohousing oferece muitos benefícios para os moradores. Estes se inserem em uma boa rede de apoio, baseada em fortes conexões com a vizinhança, compartilham recursos e tempo para a manutenção do local, desenvolvem um sentimento de segurança, ganham mobilidade e acessam um ambiente repleto de atividades espontâneas.
Do ponto de vista da saúde pública, estudos demonstram que a vida em cohousing proporciona benefícios para a saúde física e mental, diminuindo ou retardando a busca por cuidados médicos (em razão do apoio recebido pelos vizinhos), aumentando o estímulo mental (através do envolvimento na comunidade), e intensificando o sentimento de autonomia e auto estima, decorrente do auxílio prestado aos membros da comunidade. Dadas as vantagens mencionadas, o cohousing está ligado de modo consistente ao capital social.
O capital social, de acordo com Bourdieu (1986) e Coleman (1988) está relacionado aos recursos, potenciais ou objetivos, para a inserção dos sujeitos em redes de trabalho determinadas por normas sociais e deveres.
Já Putnam (1995), vê o capital social como um recurso dos grupos ou sociedades que beneficiam os indivíduos, cujas principais características são a reciprocidade, a confiança, as responsabilidades compartilhadas, a agência social e a coparticipação nas decisões tomadas.
Em nossa pesquisa não encontramos nenhum artigo que explicitasse a análise das relações entre cohousing e saúde mental. O objetivo do artigo, no entanto, foi revisar na literatura como o cohousing promove capital social e, em razão disso, saúde e bem estar de seus integrantes. A pesquisa subsidiou as decisões de um cohousing em formação na Austrália
Discussão
Os estudos revisados enfatizaram duas principais vertentes através das quais o cohousing promove conexão e capital sociais, e consequentemente saúde social dos residentes. São elas: a estrutura social e o design físico.
A estrutura social se baseia em investimento emocional e objetivos compartilhados, além da colaboração mútua, o que evidencia que a comunidade é um processo social que pode incluir laços com a comunidade externa.
Em um cohousing, membros do grupo discutem o desenvolvimento e o gerenciamento da comunidade, adquirindo a habilidade para a facilitação de conversações e para o manejo do grupo. Estas são as condições para a constituição de uma equipe coesa, e capaz de formar alianças.
Alguns artigos sugerem que a participação no processo do desenho arquitetônico fortalece a formação de novas conexões sociais e o senso de compartilhamento de responsabilidades e recursos, resultando na formação de capital social.
Como é comum, no entanto, na maioria dos estudos sobre cohousing, há ausência de comparação com um grupo controle e de investigação sobre o “senso de comunidade” prévio dos moradores. Assim, não é completamente claro como as estratégias citadas acima afetam os laços sociais. Um outro problema é o fato de que as evidências das pesquisas se baseiam apenas nas percepções dos residentes.
De toda maneira, as pesquisas sugerem que a fase organizacional do cohousing é intensa e exige fortes habilidades para a resolução de conflitos e prevenção de desacordos com impacto negativo na coesão do grupo.
Uma vez a comunidade estabelecida, os laços ganham consistência, quando os residentes compartilham refeições, atividades, responsabilidades coletivas, e usufruem dos espaços comuns.
Artigos sugerem que a natureza colaborativa do cohousing cria um ambiente no qual os moradores se apoiam e oferecem ajuda prática mútua, prevenindo dessa forma o isolamento e danos para a saúde mental.
Os estudos que comparam residentes de cohousing com segmentos demográficos similares apontam para o fato de que estes se comportam de modo muito mais solidário. Curiosamente, quando inquiridos, os residentes não percebem o apoio social que promovem. Não consideram este dar e receber como algo extraordinário.
As intencionalidades podem, contudo, diferir quando os valores comuns são colocados em prática. Nem sempre os moradores podem disponibilizar a mesma quantidade de tempo para os trabalhos exigidos para a manutenção da comunidade. Sobretudo quando há pessoas idosas ou que precisam trabalhar para se sustentar. A prioridade destas pessoas pode ser a estabilidade e não o trabalho de manutenção da comunidade.
Tais diferenças podem levar a situações de conflito ou de interrupção do desenvolvimento do grupo com alguns membros se distanciando do trabalho comum ou até mesmo deixando a comunidade de forma permanente.
Assim, as comunidades estão sempre às voltas com esta questão. Um dos autores, que explorou as impressões dos residentes de forma longitudinal, afirma que cada vez que um residente deixou ou juntou-se ao cohousing, o sistema tornou-se diferente e foi necessário um ajuste para retomar sua dinâmica.
Uma vez estabelecido o cohousing, laços com a comunidade externa podem ser construídos a partir da organização de atividades esportivas, entretenimento, cultura, eventos sociais, e oferta de benefícios tais como espaços verdes, salas de reunião, etc.
Estas ações contribuem para a aceitação e reconhecimento do cohousing pela comunidade do entorno em razão de seu hibridismo, diversidade, abertura e envolvimento com a vida social da vizinhança. As condições para que um cohousing mantenha a abertura para a comunidade externa, contudo, permanece pouco estudada.
Algumas pesquisas mostram que moradores de cohousing são menos ativos fora da comunidade quando comparados com o grupo controle, e que os benefícios recolhidos no cohousing se dão às expensas do comprometimento com a sociedade civil.
Isto parece ocorrer porque o cohousing está sempre voltado para o interior, do ponto de vista físico, e adquire auto suficiência em termos de funcionamento e relações sociais, dispondo do potencial para segregar a si mesmos.
Esta característica pode erguer barreiras para potenciais moradores e suspeição inicial da vizinhança. Alguns moradores de cohousing revelaram que a comunidade era pouco compreendida, vista como elitista, e às vezes como uma comunidade hippie. Perguntaram-se como o compartilhamento do espaço com o exterior poderia ser colocado em prática.
A prática da auto-seleção dos residentes que se encaixam no estilo de vida, baseada em conceitos abstratos, foi associada à ausência de heterogeneidade social e à segregação. Especialmente porque, com frequência, as comunidades são privadas e funcionam com seu próprio sistema de regras, decidindo quem da comunidade externa pode ser ali admitido ou pode usar seus espaços comuns.
O Espaço Físico
O estudo mostrou que o projeto arquitetônico das comunidades é fundamental para seu sucesso, devendo contar com elementos específicos propostos por Willians (2005).
Alguns artigos ressaltam a importância do “cluster design”, cujo objetivo é prover um local central para a interação social, pequenas residências em torno, e um grande espaço aberto compartilhado.
Residentes relatam que este é o projeto ideal, pois podem observar, de suas casas, o que ocorre na comunidade, juntar-se a outros residentes que estão socializando, e incidentalmente encontrar vizinhos quando desempenham suas tarefas cotidianas ou quando passam pelas áreas comuns.
Muitos estudos, com algumas exceções, sugerem que o uso de áreas para pedestres e estacionamento de carros na periferia da comunidade encorajam os residentes a fazer contatos quando cruzam com os vizinhos.
Em contrapartida, a distância das residências até os estacionamentos pode ser um desafio para os idosos, por aumentar o risco de quedas sobretudo em climas adversos. Isto aumenta o confinamento destas pessoas em casa e contribuem para seu isolamento social. Este é um aspecto negativo, especialmente quando o cohousing quer atrair residentes sêniores e integrá-los na comunidade.
Conclusão
O objetivo da pesquisa foi desenhar o que seria uma teoria do capital social, ao examinar como o cohousing promove saúde social, bem estar e integração com os vizinhos.
A literatura repetidamente afirma que cohousing promove conexão e capital sociais, através de estruturas sociais, coesão interna, confiança entre os membros, objetivos compartilhados, e designs físicos.
As comunidades também podem desenvolver enlaçamentos sociais abrindo-se para a comunidade externa, ao estabelecer relações amistosas com a vizinhança e ao criar parcerias com atores de fora da comunidade.
Sendo assim, tudo nos leva a crer no impacto do cohousing na constituição do capital e saúde sociais, apesar da limitação das evidências das pesquisas que não descrevem as metodologias usadas ou sofrem pela ausência de detalhes sobre as fontes de pesquisa.
Estudos futuros deveriam incluir grupos comparativos ao explorar as experiências de moradores de cohousing.
Tradução livre e resenha por Mônica Lima
Artigo 7 - Projeto arquitetônico sustentável - Uma opção que otimiza recursos e preserva o meio ambiente - Por Cohousing Bem Viver
PROJETO ARQUITETÔNICO SUSTENTÁVEL – UMA OPÇÃO QUE OTIMIZA RECURSOS E PRESERVA O MEIO AMBIENTE
Cohousing Bem Viver, 27/09/2023
Um projeto arquitetônico sustentável para uma vila de casas em uma região que contenha uma Área de Preservação Permanente (APP), que englobe técnicas para tratamento de efluentes e geração de energia limpa, pode trazer diversas vantagens para a construção de uma cohousing sênior. Essas vantagens estão relacionadas tanto com o impacto ambiental positivo, quanto com o bem-estar e qualidade de vida dos moradores. Abaixo, destacarei algumas das vantagens desse tipo de projeto:
Preservação ambiental: A utilização de técnicas para tratamento de efluentes garante que os resíduos líquidos gerados pelas casas sejam corretamente tratados antes de serem despejados na natureza. Isso contribui para a preservação dos corpos d'água e do ambiente em geral, evitando a contaminação do solo e dos recursos hídricos da APP.
Redução do consumo de recursos naturais: Um projeto arquitetônico sustentável busca utilizar de forma eficiente os recursos naturais, como água e energia. Com técnicas de captação de água da chuva, reuso de água cinza e energia solar, por exemplo, é possível reduzir o consumo de recursos provenientes da rede pública, minimizando o impacto ambiental e as despesas com contas de serviço público.
Promoção da autossuficiência: A geração de energia limpa, principalmente por meio de sistemas fotovoltaicos, permite que a vila seja autossuficiente em termos energéticos. Isso significa que os moradores podem gerar a energia necessária para o consumo das casas, reduzindo ou até mesmo eliminando a dependência da rede elétrica convencional. Além disso, o excedente de energia pode ser direcionado para a rede elétrica, gerando créditos e estimulando práticas sustentáveis.
Qualidade de vida: Um projeto arquitetônico sustentável valoriza o conforto térmico e acústico das casas, proporcionando um ambiente interno mais agradável e saudável. Isso é especialmente importante em uma cohousing sênior, onde pessoas com maior sensibilidade podem desfrutar de um ambiente tranquilo e confortável. A utilização de materiais sustentáveis e técnicas de isolamento térmico e acústico adequadas contribui para essa melhoria na qualidade de vida.
Valorização do imóvel: Com o aumento da preocupação com questões ambientais, projetos arquitetônicos sustentáveis têm se tornado cada vez mais valorizados no mercado imobiliário. Uma vila de casas com esse tipo de projeto pode agradar a um público mais consciente, que é o perfil de quem busca viver numa Cohousing, devido às suas características sustentáveis e aos benefícios que proporciona.
Em resumo, um projeto arquitetônico sustentável para uma vila de casas em uma região com APP, que incorpore técnicas para tratamento de efluentes e geração de energia limpa, traz vantagens tanto ambientais quanto para os moradores. Essas vantagens incluem a preservação ambiental, a redução do consumo de recursos naturais, a promoção da autossuficiência energética, a melhoria na qualidade de vida dos moradores e, inclusive, a valorização do empreendimento no mercado imobiliário. Ao investir nesse tipo de projeto, a Comunidade Bem Viver estará contribuindo para um futuro mais sustentável e proporcionando um ambiente saudável e confortável para seus moradores.
Artigo 6 - Se não é divertido, não é sustentável - Por Ricardo Pessoa Gomes
“SE NÃO É DIVERTIDO, NÃO É SUSTENTÁVEL”
A experiência da Cohousing Bem Viver como fruto da Educação Gaia
Ainda ontem, em mais uma reunião do círculo “Nosso Teto”, que cuida da gestão do projeto de moradia e infraestrutura da Cohousing Bem Viver, a Patrícia Lamego, membro recente do nosso grupo, nos relembrou o famoso jargão que percorre os movimentos ecológicos mundo afora: “Se não é divertido, não é sustentável”. Disse isso em um momento de partilha, refletindo a energia que o grupo saía do encontro.
Esta frase dita por outra pessoa que não eu naquele momento, reacendeu uma luzinha dentro de mim e me deu vontade de lembrar e partilhar esta história do começo da nossa comunidade.
A primeira vez que escutei esta frase foi em 2006, dita pela Mae East, no módulo “Dimensão Social” do curso “Educação para o Design de Ecovilas” ou “Gaia Education”, promovido e realizado pela até então recente UMAPAZ, Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, órgão da municipalidade de São Paulo. Este curso marcou muito minha vida e passou a guiar meus passos dali por diante.
Todo agricultor sabe que a qualidade da semente importa na hora de fazer o plantio. Pois bem, na hora de iniciar este ambicioso projeto da Cohousing Bem Viver, em 2019, eu pude contar com esta semente, guardada dentro de mim que, entre outras, talvez seja a mais importante.
Esta frase ressoava fortemente dentro de mim naquele início de atividades da Comunidade em Viver e vai aparecer nos primeiros materiais que compartilhei com os interessados iniciais no grupo GT Formação, um grupo de trabalho criado para cuidar da formação desta fase inicial de construção da comunidade.
Eu tinha clara a importância de cuidar dos quatro pilares fundamentais para a sustentabilidade de uma comunidade intencional preconizados pela Educação Gaia. O pilar da dimensão social logo se fez presente com a criação do GT Formação, com a escolha da sociocracia como modelo de gestão e de tomada de decisão, dos acordos feitos, dos encontros sociais, etc. A dimensão “Visão de mundo” estava presente em cada encontro principalmente nos primeiros dois anos, onde dedicava-se um momento de harmonização do grupo, de apresentar cantos ou de contar histórias. As outras duas dimensões importantes, a Econômica e a Ecológica são temas transversais que se reflete bastante em nosso DNA, um documento importante desenvolvido pela comunidade que mostra quem somos, o que queremos fazer e como, mas também muito relevante neste momento de definir o programa do nosso projeto arquitetônico e de sustentabilidade, nossa fase atual.
A frase dita pela Patrícia, passados dezessete anos desde esta formação tão relevante para a minha vida, desencadeou um sentimento muito bom de orgulho e de gratidão ao mesmo tempo, de poder ver os primeiros frutos sendo colhidos e vislumbrar os que ainda estão por vir, em nossa comunidade, e também de nosso entorno, praticando estes conhecimentos que considero tão fundamentais e cada vez mais necessários para a sobrevivência da humanidade.
Ricardo Pessoa, membro da Cohousing Bem Viver, arquiteto, educador ambiental e brincante.
Artigo 5 - Revolucionar Vai-Idosamente - Por Marisa Fumanti
REVOLUCIONAR “VAI-IDOSAMENTE”
Por Marisa Fumanti [1]
A ONU, em virtude do aumento significativo do envelhecimento no mundo promulgou a Década do Envelhecimento Saudável (2020-2030), um plano decenal de ação com estratégias globais para o envelhecimento com saúde.
Entre os principais pilares a serem debatidos estão: voz e engajamento (para que os idosos se sintam partícipe do tecido social); liderança e capacitação (instrumentalizando o indivíduo a seguir saudável, relevante e engajado na sociedade); conexão entre as partes (envolvimento entre seus pares, evitando a solidão e o agravamento de doenças decorrentes do isolamento); fortalecimento da pesquisa, de dados e de inovação (acompanhamento das transformações, pesquisas e propostas de soluções como protagonistas dos problemas vivenciados).
Observa-se a necessidade de resolver um problema futuro que já está batendo na porta. Dados de 2017 apontam que 13% da população global já passava dos 60 anos (962 milhões de pessoas). Até 2050 estima-se que todas as regiões do mundo, exceto África, terão quase um quarto ou mais das respetivas populações com mais de 60 anos. Globalmente, o número de pessoas com 80 anos ou mais deverá triplicar até 2050 passando de 137 milhões, em 2017, para 425 milhões em 2050. O crescimento populacional dos idosos, afora os problemas de falta de políticas públicas, ainda se depara com uma sociedade globalmente preconceituosa. É uma onda tão crescente que a ONU também lançou uma Campanha Global de Combate ao Idadismo, buscando mecanismo para combater e promover ações que favoreçam a saúde integral, o aumento de oportunidades, e tudo o mais que permita as pessoas prosperem em qualquer idade.
Então, vale a reflexão: o que pode fazer essa população que foi uma juventude que saiu de casa para morar sozinha, pregou a paz, o amor e o sexo livre, foi agente de grandes transformações na sociedade, a começar pelo debate do papel da mulher, foi contestadora, e catalisadora de uma série de mudanças?
Revolucionar “vai – idosamente”. É preciso refletir para transformar, não nos cabe assistir aos fatos sem propositura, é preciso dar conta de uma nova arquitetura social, onde os esforços se unam para políticas públicas nas áreas de saúde e bem-estar, moradias que oportunizem qualidade de vida e entrosamento social, além de inclusão social e respeitabilidade.
É preciso preparar a nova era para seus avanços. Já que seremos mais longevos, que a ciência nos dará mais condição de vida, que sejamos, mais uma vez, a voz da mudança. “O conceito de envelhecer mudou, já não é sinônimo de deterioração, é mais uma etapa como a adolescência, com suas novas tarefas de identidade”, como explica José. A. Sánchez Medina professor de psicologia da Universidade Pablo de Olavide na Sevilha. Revolucionemos mais uma vez!
[1] Mestra em Administração Estratégica, licenciada em Letras pela FFLCH/USP e sócia da Cohousing Bem Viver
Artigo 4 - Cohousing - uma resposta ao mal estar no individualismo - Por Monica Assunção Costa Lima
Cohousing - uma resposta ao mal estar no individualismo
Por Monica Assunção Costa Lima, do Hospital das Clínicas / UFMG, Doutora em Teoria Psicanalista pela UFRJ, Pesquisadora do Psilacs/UFMG e integrante da Cohousing Bem Viver.
O individualismo que marca nossa época diz respeito ao enfoque excessivo na esfera pessoal, em que o particular aparece como mais importante e mais dotado de sentido e propósito do que o coletivo.
Está relacionado com os ideais contemporâneos de autorrealização, autossuficiência, e com a livre escolha, cuja prevalência pode ser explicada pelo rompimento do homem contemporâneo com horizontes mais restritivos de outros momentos históricos, organizados por valores sociais, religiosos, e familiares que eram pouco discutíveis.
A possibilidade de escolher o modo como viver a própria vida, evidentemente, representa um ganho de liberdade e um aspecto positivo que o homem contemporâneo adquire em relação a seus antepassados. É surpreendente, no entanto, que em meio a essa liberdade, os sujeitos que se voltam aos espaços particulares e interiorizados passem a experimentar um esvaziamento de sentido em suas vivências.
Isso talvez ocorra porque tais vivências são desprovidas de um propósito maior e de um significado coletivo, posto que fundam-se na lógica capitalista e no hiperconsumo que nos inserem na vertigem da substituição acelerada de objetos, que perdem seu valor imediatamente após serem adquiridos. Aqui vale ressaltar que as próprias pessoas assumem as características da descartabilidade.
O homem, com seu auto-centramento, perdeu o senso de preocupação com o outro e com a comunidade, o que produz como efeito a desintegração do espaço público.
A proposta de vida em Cohousing – sem se comprometer com nenhuma promessa de abolição do mal estar inerente ao humano - aparece como uma resposta possível à intensificação da liquidez e efemeridade dos laços sociais, à fluidez dos sentidos, à sujeição ao tempo acelerado, e ao sentimento de incerteza caraterísticos de nossos tempos.
Trata-se de uma escolha que, mantendo-se livre, exige a reflexão sobre os grandes valores da vida, e sobre o retraimento dos temas morais à esfera do privado.
A vida em Cohousing supõe o pensar coletivo, a reunião de um conjunto de indivíduos que visam o bem comum, preservando ao mesmo tempo suas idiossincrasias e particularidades. Supõe o estabelecimento de um horizonte no qual residem os valores da vida em comunidade, a preservação da natureza, o cuidado com o outro, a solidariedade, a saúde e o trabalho criativo.
Artigo 3 - Lian Gong e seus benefícios para a saúde física e mental - Por Rosalina C. G. Alves
LIAN GONG E SEUS BENEFICIOS PARA A SAUDE FISICA E MENTAL
Você já ouviu falar de Lian Gong?
Essas palavras no ideograma chinês significam “Lian” - treinar, exercitar e “Gong” - refinar, aperfeiçoar.
Trata-se de uma prática da Medicina Tradicional Chinesa composta de três módulos com 18 exercícios cada, que devem ser praticados preferencialmente ao ar livre e no período da manhã para melhor aproveitamento da Energia Vital.
Caracteriza-se por movimentos suaves e lentos e pela concentração mental durante a execução dos exercícios.
É um sistema completo de alongamento, que une a prática corporal da medicina terapêutica e a cultura física, o que, na concepção dos chineses, significa o fortalecimento harmonioso do corpo em sintonia com a Energia Vital ou Energia interna, mais conhecida pelos orientais como Chi ou Qi, força promotora da atividade do corpo humano que circula nos canais dos meridianos (canais de energia). Segundo esse conceito sua dispersão provoca desarmonia no corpo e na mente, podendo levar a doenças.
O Lian Gong foi criado e desenvolvido em Shangai, na China em 1974, pelo Dr. Zhuang Yuan Ming, considerado um dos maiores ortopedistas, traumatologistas da Medicina Tradicional Chinesa e especialista em Tui-ná (manobras de massagens). O Lian Gong foi estruturado para prevenir e tratar doenças da vida moderna que desfavorecem a atividade física e levam ao sedentarismo.
O Liang Gong foi introduzido no Brasil em 1987, pela professora Maria Lucia Lee, que das mãos do próprio criador, Dr. Zhuang, recebeu a incumbência de ser a guardiã dessa técnica, com a missão de difundi-la no país. Lian Gong visa elevar a longevidade dos praticantes, num trabalho de promoção, prevenção e recuperação da saúde, seguindo a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) já incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) e praticado em locais diversos e em praças públicas de vários municípios.
Os exercícios podem ser praticados todos os dias em sessões de 12 a 15 minutos cada série. São feitos em pé, com movimentos lentos, respiração natural e música especifica ao som e ritmo de instrumentos chineses. Não é necessária roupa especial, apenas confortável aos movimentos.
Pode ser praticado por pessoas de qualquer idade. Não há riscos envolvidos na prática, mas é importante respeitar os limites do próprio corpo. Até pessoas com dores persistentes podem praticá-lo, desde que não estejam atravessando crises agudas.
Benefícios relacionados à prática constante:
Trata e previne as dores no corpo;
Melhora a circulação sanguínea;
Melhora a resistência e a vitalidade do organismo;
Combate ansiedade e estresse;
Além disso, previne disfunções dos órgãos internos;
Ajuda a tratar problemas respiratórios
Nós, da Cohousing Bem Viver (www.cohousingbemviver.com.br), temos em nossa proposta de convívio a pratica de atividades físicas que proporcionem e contribuam para o bem estar físico e mental de nossos membros, no intuito e busca constante de uma melhor qualidade de vida para todos. Nessa perspectiva a atividade e prática do Lian Gong é muito bem vinda assim como outras que proporcionem a interação entre seus membros e o bem estar de todos.
Rosalina C. G. Alves – Praticante de Lian Gong e membro efetivo do Cohousing Bem Viver
Artigo 2 - E foi dada a largada para a construção do projeto arquitetônico da Cohousing Bem Viver - Por Toninho Galdeano
E FOI DADA A LARGADA PARA A CONSTRUÇÃO DO PROJETO ARQUITETÔNICO DA COHOUSING BEM VIVER
Olá amigos e amigas da COHOUSING BEM VIVER!!!
Trago ótimas novidades relativas à construção do nosso sonho coletivo.
Neste último final de semana, dias 05 e 06 de agosto de 2023, foram iniciadas as Oficinas de Trabalho para a construção do projeto arquitetônico da CBV, com o apoio do Felipe e da Marta da ECOSAPIENS Soluções em Sustentabilidade e do Roberto Kubota e equipe, do escritório ARK Arquitetura.
Foi um trabalho efetivamente diferenciado: ao invés da mera discussão tecnicista, as oficinas propiciaram um nível de entrosamento e sensibilização que estimularam muito as reflexões e atividades do grupo, para o início da discussão do projeto. E não podemos esquecer que este que é, resumidamente, um investimento em moradia, o que, ao nosso ver, é muito diferente de um empreendimento imobiliário. Ao nosso ver, investir em moradia é um investimento vitalício, no qual pretendemos criar vínculos afetivos duradouros. Já o empreendimento imobiliário, entendemos como um investimento que visa lucro a médio prazo e que não nos estimula a criar vínculos duradouros e afetivos.
E é isso que diferencia uma COHOUSING de um condomínio: aqui você constrói, integralmente e de forma participativa, o projeto de uma moradia que ofereça privacidade e vivência comunitária aos moradores.
Nós partilhamos essas histórias e experiências com outras pessoas que tem esse sonho interior semelhante ao nosso, que possuam um espírito de desprendimento e partilha e que queiram vivenciar uma vida comunitária. Se você não estiver pronto para conviver com esses princípios e valores comunitários, talvez não seja a hora de iniciar um projeto desta natureza. Numa Cohousing, o bem da Comunidade está acima do individual. É uma experiência coletiva.
Iniciamos nossa empreitada do último sábado com um momento de integração com a terra que habitaremos e com nossa ancestralidade através da dança circular com o objetivo de equalizar as energias e intenções dentro do grupo. Foi um importante momento de entrega e reflexão sobre aquilo que queremos.
Depois adentramos nossa Casa Caipira para começar os trabalhos, momento em que o Felipe e a Marta quiseram entender um pouco mais sobre a CBV, como nos constituímos e o que nos levou e nos mantém unidos no projeto até este momento. Tudo foi registrado em imagens e flipchart.
Mais tarde realizamos um tour individual pela imensa área que adquirimos com algumas tarefas a cumprir. As respostas dessas tarefas nortearam o trabalho de confecção do story board do projeto arquitetônico.
Nesse passeio descobrimos mais alguns vizinhos ilustres, como um belo casal de curicacas que habitam o pasto da propriedade.
No domingo a coisa avançou mais ainda e ao final da oficina já tínhamos uma série de encaminhamentos, consentidos coletivamente, para embasar o início da construção do projeto arquitetônico.
Dia 26 de março ocorrerá a 2ª fase destas oficinas e traremos novas informações para incentivar aqueles que tiverem um sonho semelhante ao nosso.
É isso. Sonho que se sonha junto se torna realidade!
Acompanhem nosso perfil e saibam mais sobre este modelo de moradia que se difere daqueles que conhecemos historicamente no Brasil.
Construir os próprios sonhos é um processo desafiador e ao mesmo tempo imensamente gratificante. Neste processo é possível inventar novas formas de relação com a natureza, com os espaços de socialização, com as comunidades do entorno, e com o trabalho, nos diferenciando assim do modo de vida fundado nos interesses econômicos e no individualismo exacerbado.
Até a próxima...
Artigo 1 - Onde a Adolescência e a Envelhescência se encontram - Por Toninho Galdeano
ONDE A ADOLESCÊNCIA E A ENVELHESCÊNCIA SE ENCONTRAM
Por Toninho Galdeano [1]
Dizem que existem 04 (quatro) fases na vida humana: a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice. Até os 11 anos de idade viveríamos a infância, dos 12 aos 19 anos a adolescência (teenager), dos 20 aos 65 anos, vida adulta e a partir dos 65 anos, a velhice.
Mas esta é uma percepção desatualizada, de quem não percebe que entre a vida adulta e a velhice existe um período de transição longo e tão delicado e doloroso, quanto a adolescência.
A atual compreensão das fases da vida humana se divide em 05 (cinco) etapas distintas: até os 11 anos de idade, continua prevalecendo a infância, dos 12 aos 19 anos a adolescência (teens), dos 20 aos 49 anos a vida adulta, dos 50 aos 70 anos a envelhescência e a partir dos 71 anos, aí sim, a velhice.
Neste documento, queremos comparar as semelhanças existentes nestes dois momentos da vida humana: a adolescência e a envelhescência.
A etimologia da palavra adolescer vem do latim ad (a, para) e olescer (crescer) significando assim, pessoa capaz de crescer. Já o envelhecimento tem sinônimos menos agradáveis, como, sofrer os efeitos da passagem do tempo, tornar-se velho, perder a juventude, perder atualidade, cair em desuso, entre outras rudezas que desqualificam essa fase da vida.
Você talvez nunca tenha ouvido falar sobre a envelhescência, mas este é um termo muito utilizado por alguns filósofos e estudiosos do tema. Esse período envelhescente compreende a fase entre os 50 e os 70 anos de idade, uma espécie de “geração sanduíche” entre a idade adulta e a velhice. A envelhescência é a fase de transição da vida adulta para a velhice.
Então, podemos resgatar e comparar alguns pontos cruciais do período da nossa adolescência para confirmarmos se nós, a “geração prateada”, temos algo em comum, com eles:
Depois que li um livro da médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes, adotei sua “teoria da preparação para a viagem ao Saara”, como um alerta para a vida na envelhescência. A autora apresenta uma “parábola” que conta a história de um sujeito que aos 40 anos de idade foi informado que, dali a aproximadamente 20 anos, faria uma viagem ao Saara e que não teria como recusar esse convite, a não ser que morresse antes disso. Logo, esse sujeito teve duas décadas para se preparar para a viagem, mas quando chegou a data, vários imprevistos o surpreenderam.
Chegando ao Saara, ainda durante o dia, ele se deu conta do calor extremo e do sol escaldante que assolava o deserto. Rapidamente sacou seu óculos de sol da mala e sentiu-se feliz ao observar as dunas e os bonitos camelos por que ali vagavam, mas percebeu que havia esquecido de levar um protetor solar e um chapéu. Como seu topete já havia se esvaído desde os tempos do convite para a viagem, as queimaduras e a insolação foram cruéis. Mas mesmo assim continuou caminhando. E a sede foi aumentando. Então nosso viajante percebeu que sua garrafa com água seria insuficiente para aquela viagem: ela já estava quase seca. Mas o sol foi se pondo e uma nova esperança de chegar ao acampamento e reabastecê-la o animou. De fato, conseguiu encher sua garrafa, mas então percebeu que a temperatura caia assustadoramente no deserto. E ele, mais uma vez, não havia se preparado para isso: só levara roupas de verão, imaginando o calor dos dias ensolarados. E então ele cobrou de seu colega de viagem: “Você me colocou numa situação muito difícil. Não sei se conseguirei sobreviver às intempéries deste ambiente inóspito e desconhecido”. E então, serenamente seu companheiro de viagem respondeu: “Mas você teve duas décadas para se preparar para esta viagem e chegou aqui assim?”
Pois é, minha gente. Preparem-se para este novo lugar ao qual chegamos. Ele exigirá adaptação, resiliência e interdependência. Prepare seu corpo com exercícios que o ajudem a caminhar, reveja seus hábitos alimentares, pois as mudanças em seu corpo pedirão isso, fique atento à sua moradia, para que ela não se torne um risco a você, com todas as quinas e pisos escorregadios que podem te derrubar. Ah, e o mais importante: tenha a seu lado companheiros que partilhem dessa viagem – não viaje sozinho, pois isso poderá ser desnecessariamente desgastante. Fazer as coisas juntos, de forma interdependente, é sempre mais fácil e prazeroso.
Essa viagem pode ser maravilhosa sim, mas você precisa se preparar para fazê-la com antecedência e da melhor maneira possível.
Você já preparou suas malas?
[1] Envelhescente, mestre em Educação e licenciado em Artes Cênicas. Encontra-se em fase de transição de carreira e se prepara para a grande viagem com a turma da Comunidade Bem Viver (http://www.cohousingbemviver.com.br), da qual é membro desde 2021. Conheçam nosso projeto.
[2] Discriminação ou preconceito em razão da idade, nomeadamente aversão a pessoas mais velhas ou à própria velhice; ageísmo, idadismo.